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José A. Bragança de Miranda


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ABSTRACT:

"Control and Passion"

The paper centers mainly on Control considered as the essence of technics. In our days, technology as the power of the human word (theological or ethical word) over technics has reached its end, appearing as a generalized language, able to translate all aspects of the world into information. Much depends on the possibility to separate cyberspace (the name for space of control) from virtuality, which surpasses largely VR technology. We shall elaborate briefly an archeology of control, as it was build historically, as a means to understand this trend towards control. This archeology has its crucial moment in Aristotelian scheme of dynamis/energeia, a model that is present in the development of all occidental technology. We will show that this ancient model integrates 3 poles: potential, virtual and actual. In historical culture, Control manifests itself as an actualization of some possibilities, negating the non effectuated possibilities. The criterion was exterior to the process of control, being theological, ethical or political. That explains the modern view of technics as an instrument, its dualism as space of effectuation, and its modalization of control as Power (to realize something) or domination (over that power itself). In its present form, technics is demolishing this perspective. Now control supports a space of codification, of regulation of actualization, realizing all the possibilities acceptable inside this space, giving him a technological consistency. Virtual technology, if controlled, gives consistency to cyberspace. All event, in its violence, is considered necessarily as an accident or a catastrophe.

These tendencies have brought a crisis to the modern structure, based in the opposition between nature and culture, between reason and passion, between reality and imagination, since technics as an elementary force of physis colonizes human experience. That explains the failure of the efforts to bring inside cyberspace the modern logic of rationality and imperium. These failures enforce the sublimation of control, liberating as control of control (Deleuze). The combat against control shifts mainly to another level: the level of passion, of the body and above all of the flesh. The passion of flesh is the ultimate form of control (Cronenberg's The Fly). The romantic tradition of "imagination" prepared what McLuhan refers as narcissism or Baudrillard as seduction, creating a Homo sensibilis, where present technologies inscribes itself directly, without mediations of any kind. They connect on pure desire, without figure or object. The actual space of control must be understood as a bloc of machines, drugs (biochemical) and passion. Imagination becomes pure and instantaneous image. Since all depends on direct connection, on eternal on-lineness, the fight against control centers on connection and mediation. William Burroughs will be adduced as an paradigm. Between "control space" and the "crash space" of contemporary experience (indeed in ruins) we must create a virtual space of apparition, enigmatic as the platonic chora, as a space of unending fall of everything (fragments and ruins, but also the simulacra of totalization). Learning to crash shall be the first axiom of a new Psykhê, truly political and not aesthetical.

BIOGRAPHY: José Augusto Bragança de Miranda, born in Lisbon, 43 years old, licentiate in Sociology, with a Ph. D. in Communication, is Professor at the Communications Sciences Department of New University of Lisbon, lecturing in "Political Theory" and "Cultural Criticism." Former director of the Department and President of the CECL (Centre for Research on Communication and Languages), he is now responsible for the "Specialisation in Culture and Communication" at the same department and is editor in chief of the "Review of Communication and Languages" (22 issues). He is author of several essays on cultural, political and aesthetical subjects. In 1994 he published a book on "Analytic of Actuality," having in print another book on "Politics and Modernity." His actual research field centers mainly on culture and technology.
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PAPER:  

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"CONTROLO E PAIXÃO"

«Cette fois, comme cela m'arrive presque toujours quando c'est allé un peu trop loin, j'ai eu l'impression d'avoir "touché le fond". "Toucher le fond", cela m'apaise toujours un peu sur le moment, me force à me redresser, il me semble toujours, quand je me suis dit cela, que maintenant je repousse des deux pieds ce fond avec ce qui me reste de forces et remonte...». Nathalie SARRAUTE

Na sua forma actual a técnica precisa da paixão. Uma frase que toca o bizarro. Mais o será no momento em que a técnica possa dispensar a paixão. Nada de enigmático aqui, apenas um imperativo da técnica. Isso, porque se a essência da técnica é o controlo, nada exigindo vcontrolo para além de si próprio. Só a técnica não realizada precisa da paixão.

I. É, portanto, preciso partir da técnica. De facto nos nossos dias, o acontecimento por excelência é a técnica na sua forma final de nihilismo realizado. Isso implicou uma alteração fundamental, embora desapercebida. A tecnologia enquanto domínio do mundo humano sobre a «técnica» está a chegar ao fim, a um ponto de não retorno. Tal como o mito não impediu a teologia, e esta a tecnologia. A técnica aparece como língua pura e geral, capaz de traduzir todos os aspectos do mundo em informação. Entra citação de Heidegger. Essa «tradução» é algo de novo e perante ela o pensamento moderno está crescentemente desarmado. Não é casual que à medida que as velhas categorias milenares perdem pertinência, as categorias novas vêm da própria tecnologia, como é o caso de RAM, da VR, do SLIP/PPP, de INTERNET, etc , e no caso mais gerais o de «cyberspace», de telepresença, de virtualidade . Mas se a essência da técnica é o controlo, a incapacidade de dar conta dele reflecte a incompletude de um processo que começou há muito, mas que parece estar a alcançar uma fase decisiva.

Por entre a imensa floresta de siglas, ganhou evidência o cyberspace, que parece ser capaz de dar «coerência» a este desarroi da nossa linguagem. Propomo-nos traduzi-lo por «espaço de controlo», para imediatamente distinguirmos entre o controlo e a virtualidade. O espaço em que comunicam é o mesmo, mas são duas coisas distintas, embora mantenham relações ao nível da efectividade . Sobre o assunto diz Kerckhove: «La présence-existence immatérielle du virtuel implique que les conditions d'actualisation sont réalisées, c'est à dire organisées sous un régime de contrôle strict, mais que l'actualisation même demeure encore en puissance, et qu'elle peut suivre un certain nombre de parcours en partie dépendants de l'aléatoire». Comecemos por sublinhar que controlo e virtual subsistem num mesmo espaço, mas em tensão. Bem vistas as coisas, o «aleatório» consiste tão somente no «desejo» humano, sendo tudo o mais rigorosamente determinado pela tecnicidade desse espaço. Veremos mais adiante que o «desejo» não é um elemento exterior ao processo de controlo. É preciso justamente interrogar o que garante a virtualidade, dando-lhe uma consistência tecnológica, ou seja o espaço de controlo. É este que emerge como problema decisivo, e é por ele que começaremos a nossa análise.

Para perceber isso convém elaborar, mesmo que demasiado sumariamente, uma breve arqueologia do controlo, tal como se cosntruiu historicamente. A novidade desta pendência para o controlo só pode ser apreendida em confronto com a maneira como irrompeu da história, cindo-a em duas. Seria possível mostrar que a tecnologização do virtual foi preparada pela metafísica, e a teologia ocidental, esse bloco que Heidegger denominava por «onto-teologia ocidental». Neste processo desempenhou papel determinante o esquema aristotélico da dynamis/energeia, modelo «metafísico» em que assentou toda a tecnologia ocidental. Trata-se de mostrar, de conferir-lhe pelo menos plausibilidade, que este antuíssimo esquema integra 3 pólos: potencial, virtual, actual. E não apenas, como aprece ser a opinião corrente, a oposição entre potencial e actual. O controlo é introduzido no esquema como a capacidade de dominar o processo de actualização, i.e., de realização, de certas possibilidades. Essa introdução desempenha um papel essencial na historicidade ocidental. Na mediada em que o controlo equivale, deste ponto de vista, à actualziação de certas possibilidades, bem determinadas, isso implica a negação das possibilidades não efectuadas, e de uma dupla maneira. Para realizar algo é preciso que a figura existente seja negada, e é precisa ainda uma segunda negação, pois a realização de outras formas, destrói ou, no mínimo, adia, as possibilidades não realizadas . Este esquema formava historicamente uma estrutura de realização, articulando potencialidade e actualização. Ou seja, de entre várias possibilidades apenas uma era realizada em cada momento (respeitando assim o princípio da não-contradição de que não é possível existir ao mesmo tempo A e não-A). Neste esquema o virtual identificava-se com a potencialidade, servindo apenas para hierarquizar as possibilidades realizáveis. Repare-se, para terminar, que se a realização era dominante no esquema aristotélico, a desrealização era uma condição necessária .

O que caracteriza historialmente esta estrutura é o facto de que o critério de realização e desrealização ser 1) exterior ao esquema tecnológico e 2) ser englobante. O critério era mítico e teológico, passou depois a racional, e acima de tudo «político». Algo que começou por ser teológico e depois político, está a tornar-se hoje tecnológico . É preciso pressupor que esta exterioridade e englobância constituía uma espécie de meta-controlo, que estava misturada com a figuratividade mítica e racional, que limitavam, tolhiam, a eclosão do controlo. Este estava determinado pelo espaço de realização.

Dada a longa permanência deste esquema percebe-se melhor a visão moderna da técnica, que a encara como instrumento. Esta era um simples «meio» ao serviço de um espaço de realização, através do qual se trabalhava a experiência e a natureza, simultaneamente, através de figurações ontologicamente densas. O controlo não se distinguia das figuras fortes, primeiro teológicas, depois políticas (da polis humana), assumindo as modalidades de «poder» - para realizar algo e, concomitantemente, negar algo. O que diferencia a modernidade da experiência anterior, é que nestas vigorava sob a modalidade de Dominação, que se exercia antes de mais esse próprio poder. Na modernidade o poder liberta-se da dominação, e toda a tentativa de estabilizá-lo implica um retorno da dominação . Só que tal retorno é ilusório. Também é verdade que a resposta à nihilização desse poder acarretou a crescente imposição da técnica, ao ponto de tecnologizar toda a medialidade . Nos nossos dias a técnica está a libertar-se do logos histórico, estando a demolir a perspectiva ocidental, por dentro, deformando-a irremediavelmente. Momento de chegada à consciência deste facto é o livro de Jünger sobre a «mobilização total do mundo» pela técncia, o que exigiria um domínio complerto do humano sobre esta.

O espaço de mediação clássica, que tendo uma dada relação ao controlo ainda não era o espaço de controlo, implicava a prioridade dos fins, uma lógica do telos e um «demiurgo» (um artesão/operador). Este espaço de realização, servia de matriz à oposição entre possibilidade e existência, que se modulava numa série de outras oposições, como as de princípio e fim, de presença/ausência, de hard e de soft, de permanente e de efémero, etc. etc. O carácter dual destas séries era absolutamente necessário, mas estava limitado pela figuratividade que contaminava com matéria histórica a pureza desta primeva lógica binária. À medida que a lógica se foi purificando do figural, impõe-se o digital como a verdadeira linguagem binária, algo que a lógica clássica de certo modo antecipava.

O virtual estava oculto sob o potencial, subsistindo apenas como imaginário, onde se intuíam, ou se construíam as possibilidades. Mas este ««imagina´rio» sera cosntruído pelos românnticos, já que metafisicamente as possibilidade era «reais», em todos os sentidos da palavra. O controlo deste proceeso era-lhe exterior, pois tudo era determinado pela ideia de realização de algo, actualizando um possível . Esse processo era ambivalente: por um lado, levava à separação entre ideal e material, entre presente e ausente, ou seja, realizando ora um, ora outro ; por outro lado, virtualmente estes elementos mantinham-se tensionalmente ligados. A técnica funcionava como auxiliar do processo de realização. Com a libertação da técnica ocorrida na «modernidade», esta acabaria por pôr em causa o próprio espaço onde funcionava, deformando-o crescentemente. Podendo mesmo substituí-lo e mesmo destruí-lo. Com as tecnologias da informação a técnica determina a realização dentro de processos de controlo abrangentes e automáticos. Ao mesmo tempo o imaginário torna-se efectivo enquanto virtual, abolindo a distinção entre real e imaginário. Mas a relação entre ambos passa claramente pela exterioridade do espaço de controlo. REPENSAR

Agora o controlo emerge como campo de luta, e na sua forma pura, fora das figuras históricas. É o mesmo que dizer que a técnica se escapou ao esquema que ilusoriamente a enquadrava, aparecedo como a verdade do esquema. Ela expressa-se num novo espaço, ambíguo e que pouco tem a ver com o espaço perspectivistico dos modernos, que assume uma dupla forma: a de um espaço controlado, de codificação, de arquivo, de permanente actualização ; mas também a de uma espaço puro, espécie de Chora, espaço de passividade, de queda absoluta. Do ponto de vista do controlo, são realizáveis todas as possibilidades aceitáveis no interior desse espaço controlado. O espaço virtual e o controlo confundem-se, porque, realizada a imaginação, o primeiro aparece apenas quando dotado de consistência técnica. Por seu turno, a virtualidade controlada, por exemplo, enquanto VR, dá consistência ao cyberspace, estende-o. Mas também lhe dá visibilidade, que é sempre uma «brecha» para o pensar, para o agir.

Na medida em que esta estrutura é o resultado do encontro da experiência-em-crise com a técnica, tudo aparece como efeito de uma falha do controlo. Todo o acontecimento, na sua espontaneidade e mesmo violência, é considerado necessariamente como acidente ou catástrofe. Isso é a consequência inevitavel do colapso da estrutura moderna de poder, e com ela cai toda arquitectónica moderna que opunha natureza e cultura, realidade e imaginação, razão e paixão. O resutado será: a técnica é introduzida para resolver a perda de controlo e mais não faz do que potenciar o controlo puro, i.e., a técnica que fez implodir todo o esquema aristotélico. A técnica, enquanto força elementar da physis coloniza a experiência humana. Tudo isto explica o fracasso dos esforços que pretendem inserir o cyberspace na lógica moderna de racionalidade e do imperium . Afinal, esse domínio em fracasso, reforça a sublimação do controlo, libertando como controlo do controlo (Deleuze). Mas, ao mesmo tempo, o humano liberta-se como humano, ou seja, como puramente vazio, em espera de figura.

Estamos hoje a viver as ondas de choque da colisão entre o espaço clássico da realização e o espaço de controlo actual que dá consistência ao virtual . Estas ondas disseminam-se por toda a experiência. O virtual está em tensão com a potencialidade, e de duas uma: ou o virtual é uma intensificação do potencial que suportava a realização, ou é uma forma de o menorizar, aligeirando a experiência da grande maquinaria da dominação. O virtual é realização-desrealização, um irreal real ou um real irreal, ou seja, dá efectividade ao imaginário, que se torna primeiro, envolvente e flexível. Mas não há imaginário efectivo sem um certo controlo da transição que tende paar a instantaneidade de realização e desrealização. O que leva a perigos, pois como diz Florian Rötzer: «The price we pay for the freedom of traveling weightlessly in virtual spaces, which are no longer subject to the laws of physics, is the totalitarian control over the environment, over each of our movements and perhaps over every thought as well, should we be successful in connecting the neural CRT to the computer» . Porém, nessa liberdade habitam outras possibilidades, a de uma virtualização do humano, doatdo de vir, força, capaz de sentido a esse perigo. Nessa «descolagem» absoluta do real, cosntruído pela realização moderna, que era um efeito de dominação, o huamno arrisca-se, mas só assim se poderá salvar.

II. Se tudo se transforma em acidente, em todos os sentidos da palavra, de que a essência é o controlo, o útimo factor a afastar concentra-se no humano. Sabemos pelo nosso confronto com o in-humano, a Physis, que este é vazio, figura de acolhimento de todos e cada um num espaço-em-comum. Oferece resistência apesar de vazio. Daí que tudo se desloque para um outro nível: o nível da paixão. Paradoxalmente o controlo que precisava da economia capitalista para se libertar da teologia, e desta última para se libertar para se libertar da magia mítica, precisa da «paixão» para se libertar do humano. Ora, a paixão é uma forma de corpo, como este é uma figura da carne. A luta trava-se em torno do corpo. Como se lê numa obra de Barbara Kruger: «Your body is a batleground».

Como é que se chega ao corpo, que não existe? Que é uma invenção? Trabalhando as figuras em que se enxerta, que o dissolvem em «desejo», que é o corpo dissolvido e entrega da carne. A paixão pela carne é a forma terminal de libertação do controlo, assim se definindo o humano pela carne. Em The Fly de Cronenberg essa luta é manifesta, e é o desejo pela carne que opera a «cyborguização». I.e., a mescla da máquina e da carne. Muito sumariamente dito, a «paixão» é carne mais figura, ou seja, é uma figuração do humano que protégé e oculta a fisicalidade da carne. Na medida em que a figura se intromete entre o controlo e a carne, demoranda-a ou obstaculizando-a, mas também servindo-lhe de ponte, torna-se preciso apreender a maneira como este espaço de mediação foi cosntruído.

A tradição romântica da «imaginação» preparou o que ambiguamente McLuhan descrevia como narcisimo ou Baudrillard como sedução, criando peça a peça o Homo sensibilis, lado a lado do homem racional. Em lugar do estético ser uma compensação à racionalidade , era verifica-se hoje que era complementar do trabalho de realização tecnológica do mundo. É menos estranho do que parece que seja sobre este que se vá inscrever a tecnologia contemporânea. Há aqui um paradoxo: a necessidade de «simular» uma isncrição directa, sem mediações de qualquer espécie. Isso só é possível quando o fazem sobre a carne, como de facto está a suceder com as próteses ou com a replicação genética. Vonatde de ligação dedirecta é clara. Mas por necessidade que já esclarecemos, a inscriçaõ actual da técncia ns corpos passa pelo desejo . E este só pode ser «atraído» pelas figuras em restância no «arquivo» e na memória. Só se conectam sobre a carne através do dejeso por uma figura, e só dispensam a figura através de um desejo puro, o «desejo do desejo». Daí o imenso dramatismo das conexões, das ligações. Na medida em que elas são controladas pelo espaço de controlo elas são ligações virtuais, que estão já-aí, antes e aquém de qualquer figura ou objecto . Mas estes últimos, sendo uma ponte para o controlo, são também um resíduo do humano. Um obstáculo, portanto.

A instrumentalização do virtual como cyberspace ganha crescente força à medida que o virtual desaparece do imaginário e se torna em algo consistente, regrado, implodindo para si, para o seu centro impossíevl (Pascal), toda a experiência. A «impureza» do controlo actual, que ainda é obrigado a desdobrar-se no tempo, tem porém de aboli-lo ilusoriamente . Vê-se assim como era transitória a oposição entre razão e paixão, tão determinante na ordem moderna. Ambas eram preparatórias de algo que apenas no cyberspace era possível, fundindo-se aí sem deslassamento . A primeira, preparando os manipuladores e a segunda os pacientes.

Daí que o espaço de controlo contemporâneo possa ser visto como um bloco de máquinas, drogas (bioquímico) e paixão em que o «corpo» é um campo de batalha. A pureza absoluta do controlo dispensaria a mescla de químicos (drogas) com as máquinas, tudo se ligando instantaneamente e sem obstáculos. Isso é bem demonstrado pelo Crash de Ballard. CITAR BALLARD. Concomitantemente, na medida em se separa carne e figura, a imaginação torna-se imagem absoluta e instântanea, solta e desligada. Daí a natureza espectral da nossa experiência . Da crise do nosso mundo restaram apenas «espectros», imagens em vida e em morte (Sarraute), à procura das almas para melhor dispor dos corpos, para os entregar á técnica. O controlo torna-se necessidade e a necessidade relança o controlo. Mas essas imagens vagueiam num espaço «entre», que pode ser propiciatório. Já que tudo depende da conexão directa, de on-lineness eterna, a luta contra o controlo centra-se em torno das ligações e, em geral, na mediação.

É certo que este processo está ainda a dar os primeiros passos, tendo muito de imaginário. Sintomaticamente foi o imaginário que começou a ser invadido pelo espaço de controlo, como o revela o enorme desenvolvimento dos jogos de computador, que está a constituir uma cultura própria. Esses jogos foram, como diz Ed Keller «one of the primary examples of an extension into cyberspace of the operative realm of the virtual in a way that is specifically spatial (as an extension of the subject into a virtual space through telepresence)» . Este fenómeno que começou nos jogos está a afectar todos os domínios, indo dos arquivos à arquitectura, da televisão à Realidade Virtual. Trata-se de uma verdade «montage of attractions» (Sergei Eisenstein), que depende da conssitência técnica do virtual, que agencia a rede de arquivos e databases pejados de «experiência» desrealizada. O espaço de controlo aumenta à medida da inclusão neste espaço, à medida do incremento das ligações.

A impureza de um controlo ainda hesitante, em torno do qual se luta, exige essa «álgebra do desejo» de que falou tão profeticamente William Burroughs . A sua forma actual é a do cyberspace, sem que possamos ainda sonhar até onde pode chegar . Intuímos, porém, que a sua natureza é alucinatória. Di-lo William Gibson no seu famoso romance: «o ciberespaço é uma alucinação consensual experimentada diariamente por milhares de milhões de operadores autorizados». É essa alucinaçãoo que confere onticidade ao desejo . Tudo indica que o alucinatório acabará por não precisar desses meios rudimentares de ligação. Mas a própria existência dessa tendência revela o caminho por que estamos a adentrar-nos. Que levava já McLuhan a dizer em 1969 que «A atracção pelas drogas alucinogéneas é um meio de alcançar a empatia com o nosso meio ambiente electrónico, ambiente esse que é em si uma viagem interior sem drogas» . O complicado aparato de luvas e de eléctrodos que hoje simulam a «realidade virtual» exige justamente formas de apagamento da realidade «real» do metal e das próteses para se poder atingir o estado alucinatório. A química acabará por o fazer, fazendo de todo o movimento, simples quimiotropismos. Ou enxertando-se directamente no cérebro, simples electrotropismos. O imaginário do zaping dissemina-se, tudo se resumindo a um controlo remoto, que acabará por abolir-se ao realizar-se instantaneamente, deixando de rter sentido a a diferença entre controlo e controlado, quer remoto quer próximo. O controlo será perfeito quando se abolir enquanto tal.

Pela incompletude deste processo existe uma tensão entre o virtual e o espaço de controlo. Não é possível concordar com as análises de Gilles Deleuze, bem importantes por sinal, sobre as «sociedades de controle», que teria substituído totalmente as formas anteriores de dominação, subsistindo apenas o controlo. CITAR DELEUZE. O problema é que é praticamente impossível distingui-los, sendo necessário arrancar o virtual ao espaço de controlo. Este último, contrariamente ao espaço de realização clássico, que era fechado e rigidamente centrado, é agora aberto e acentrado. Não é por esta característica que se distingue do virtual. Diria, ainda demasiado provisoriamente, que o virtual é «capturado» pelo controlo. ENTRA ANÁLISE DO VIRTUAL. No fundo tudo depende de se conseguir distinguir a virtualidade da potencialidade. Será que se deve ao facto da existência, da efectividade? Na verdade, o controle implica pensar em relação à possibilidade. As possibilidades infinitas equivale, de algum modo, à virtualidade (que se torna efectivo sempre no singular), e em contragolpe, o cyberspace corresponde a finitização do virtual (que, paradoxalmente, leva sempre à indiferenciação). Mais do que falar-se de distingui-los, deveríamos dizer que estão misturados no mesmo processo. O carácter mesclado do controlo deve-se, tudo o indica, à tecnologização do virtual, mas também por à sua colonização a partir do arquivo da cultura. Bom exemplo disso é o hypertext

De facto, o cyberspace é um espaço de modulações, de permanente retraçamento, de linearização absoluta, controlando tanto as regras como as posições. Mas isso só é possível porque o virtual dá uma efectividade a todas as posições, sejam elas quais forem . Tudo é traduzível nesse espaço cibernético. A possibilidade de controlo absoluto tem a ver com a possibilidade de uma tradução generalizada em linguagem digital, seja dos corpos seja das regras, seja das posições. O facto de uma imagem exigir mais bits não impede que a sua inscrição nesse espaço seja idêntica à da escrita ou à dos corpos. O cyberspace opera uma espécie de linearização do virtual, estabilizando-o como espaço de suporte. Ou seja, para se transformar o espaço virtual em algo controlável este tem de ser linearizável, tudo se reduzindo a uma série de databases (como é exemplificado pelo programa Genoma). Depois é preciso um controlo desse controlo, e portanto uma linearização de segundo nível e por aí fora, abrangendo uam infinidade de níveis, numa circularidade que ocorre fora do tempo, a que paradoxalmente se chama «tempo-real» . Como mostra William Burroughs é um tempo da morte infinitamente suspenso sobre o espaçamento do controlo. À pergunta: «If control's control is absolute why does control need to control?» vem a resposta sintomática: «Control needs time» . Ou seja a única coisa que o controlo precisa é de tempo, mas para o abolir e realizar-se como controlo. Toda a necessidade ou desejo, é uma forma de dar tempo ao controlo , aplaando o caminho para a sua efectivação física, o que equivale, como vimos, à sua abolição.

III. Dada a radicalidade deste controlo do controlo que é o cyberspace parece irrisória a tentativa da Realpolitik que procura servir-se do controlo para sobreviver. Apenas fortalecendo o que utiliza por necessidade absoluta. Contrariamente à visão edulcurada, como a do filósofo americano Mark Taylor, para quem com o virtual «o poder se tornou imaginário» e em que «ninguém está no controle» . É que o problema agrava-se quando o controlo se se separa do poder. É que o poder enquanto dominação usava o controlo como auxiliar, enquanto que agora o controlo usa o poder como simulacro para melhor se disseminar. Por mais que o poder, tal como se estruturou na modernidade, procure vigiar todo o espaço, criando uma espaço de segurança total, acabou por o fazer em fracasso. A resposta a este fracasso passa pela intensificação do controlo (e da técnica, que tem aqui analogias surpreendentes, tendo ela passado de auxiliar para directriz). Brian Massumi fala de uma potência ligada ao virtual e um poder ligado ao actual, como se o poder fosse apenas uma concretização e abaixamento do virtual. Mas as coisas parecem ser mais complexas: pois o virtual é o espaço de mediação imediata que tende a envolver todo o mundo, virtualizando-o. Enquanto cyberspace tudo se joga na actualização de certas possibilidades, provenientes do arquivo geral da experiência que é a cultura. Só que essa actualização é puramente simulacral, pois se tudo se pode actualizar é porque é indiferente aquilo que é actualizável. O virtual pode servir assim de espaço de suporte para a inscrição imediata do mundo e dos corpos no controlo.

O que alimenta este processo é o prolongamento da vontade teológica de dominar a existência na sua totalidade, i.e., controlando todas as virtualidades e através dela realizando todas as possibilidades. Para isso é preciso que tudo se mantenha suspenso virtualmente, realizando e desrealizando ao mesmo tempo todas as possibilidades. Esse lógico fantástico que foi Lewis Carrol refere também, numa das suas obras, a existência de um mapa desse género, que utilizaria o próprio território como mapa, com a vantagem de que seria muito mais fácil de actualizar que os outros mapas. Trata-se de um «mapa» arcaico, que se confunde com a totalidade da Terra. É claro que esse era o mapa teológico, ou então aquele que resultará de uma época pós-tecnológica. Todo o acto seria cartografável, arquivável, pois a dimensão simbólica, da distância seria desnecessária nesse mapa, que aparentemente ainda pertence ao universo do simbólico. Chegar-se-ia, assim, como diz Candeiras, a um «Ciberespacio como espacio virtual agregado y total» . Esta nova possibilidade de realizar ateologicamente a totalidade é um processo de actualização, como se refere em Lewis, pois é isso que está em causa, que o mais mínimo movimento, seja retraçado, arquivável e isso só é possível com o controlo do virtual, enquanto espaço de efectividade em geral.

Os perigos desta tendência são claros: criar-se-ia um duplo da Terra, onde tudo está suportado numa tecnologia evanescente, anulando-se as diferenças entre o humano e o não humano. Tendência celebrada pelos cyberpunks, mas que é inaceitável, pelo menos para aqueles, entre os que me incluo, que consideram que o humano implica uma ruptura com a «natureza», um salto na «liberdade» (Rousseau). Na verdade está a tornar-se claramente problemática a fusão do virtual controlado tecnologicamente como cyberspace com a Terra, o inorgânico. A actual tentativa tentativa de povoar esse novo espaço é inexorável, pois este adentrou-se na experiência que é a nossa. É certo que isso reforça o automatismo do cyberspace. Mas o tempo que o controlo precisa é o nosso tempo, e partindo deste é possível lutar contra o controlo sem o reforçar. O que passa por uma outra compreensão do virtual, naquilo que ele tem de radicalmente distinto do espaço de controlo.

É preciso privilegiar o virtual, não apenas enquanto desrealização da «realidade», em si mesma pesada, demasiado pesada, e que foi sempre a história das possibilidades vencedoras , mas enquanto espaço outro, talvez da mesma natureza da Khora de Platão, onde tudo ganha vida virtual. Esse espaço outro foi algures descrito por Foucault como um «espaço do dehors». ENTRA CIT FOUC. É um espaço de queda heteróclita de tudo, de fragmentação de toda a totalidade, sem princípio nem fim. Mas é nele que ocorre a incessante declinação da experiência em torno de singularidades não retraçáveis, que estão sempre «algures». O virtual seria a sombra da experiência, onde o real pode finalmente aceder sem terror nem violência .

Esta simples possibilidade libertar-nos-ia de séculos de violência, de nihilismo. Enquanto a potenciação que lançou a máquina do controlo é negativa - a realização de uma possibilidade impede, desloca ou substitui outras - já o virtual é afirmativo. Várias possibilidades têm existência efectiva, num tempo que não é nem o da cronologia nem o da durée. Que é o tempo da finitude do humano. Dada a sua fragilidade, que se apoia numa incompletude da técnica, numa insuficiência do controlo, tudo se joga no tempo, na tensão que ocorre entre ligação e desligação, entre velocidade e demora. Deste ponto de vista é difícil afirmar, como faz Kerckhove que «Il est désormais possible de réaliser une installation par laquelle le point de vue mental intérieur de l'imaginaire créateur peut être renversé techniquement vers l'extérieur, sans perdre tous les pouvoirs de contrôle qu'il possède sur la fabrication, la modification et la substitution des images mentales» . Porque se misturam aí duas coisas bem distintas: a efectivação de possibilidades que não negam outras, i.e., que não têm de destruir outras para se actualizarem, mas também a ideia de uma totalidade de controlo que impeça a entrada em pane da tecnologização do virtual. O efeito desta segunda é a implosão daexperiência histórica. Mas justamente enquanto o virtual é o «espaço do dehors», já o cyberspace é a negação da exterioridade, a imediaticiade da ligação de tudo com tudo. O actual empobrecimento da experiência, que é povoada pela telepresença, pela voz mediada tecnologicamente, pode ser contrariado pela arte, mas coloca como questão última a política .

A vontade de controlar o controlo apenas o potencia. Mas também não é possível abandonar o espaço aberto pelas novas tecnologias. O fracasso, chegados ao ponto a que chegamos, será mais catastrófico do que em qualquer outra altura da história . É preciso saber responder a este perigo, Daí que se precise de uma arte da distância, de um política da divisão, de uma lógica da declinação, que salve tudo o que fizemos de nós, e que está em suspenso na arquivialidade do virtual. William Burroughs dá-nos uma lição política ao lutar esteticamente contra a linearização, a ligação forte. CITAR BURROUGHS. A sua obra foi das poucas que, neste século, conseguiu pensar as condições em que é possível intervir na fusão das máquinas, do bioquímico e das paixões, que constituem o bloco alucinatório que nos atrai irremediavelmente. E cujo término equivaleria à pura vitória do controlo ou à barbárie. Que, em boa medida, vai destruíndo as nossas cidades . Em suma, entre o «espaço de controlo» e o «crash space» da experiência contemporânea, de facto em ruínas, precisamos de criar um espaço virtual de aparição, enigmático como a Chora platónica, como um espaço de queda infinita de tudo (fragmentos e ruínas, mas também os simulacros de totalização).

Esta nova espacialidade que prolonga a experiência histórica é encadeada pela experiência interior da memória. A capacidade de compor o que cai fragmentado pelo coplaso do moderno, pelo fracasso das resposats ao nihilismos, exigem uma nova psyché. A afecção trabalhada pelas máquinas, faz-nos circular entre o psicopatológico e o narcisismo, e nada pode responder a isso se não um outro trabalho sobre a afecção. Pois este é o objecto do espaço de controlo actual. Não por acaso, num outro momento de crise do moderno, nos anos 20 deste século, Robert Musil deixou-nos algumas indicações sobre como orientarmo-nas na nova urgência que é a do nihilismo. É preciso intervir na forma alucinatória que é o resulatdo do trabalho sobre a paixão, trabalhando as imagens e figuras que nos afectam, através das quais somos ligados à imensa maquinaria do passional. Num dos seus aforismas, Musil apresenta a fórmula paradoxal de ideia-afecção, essa composição volátil aue é visada pelo controlo. Quando diz que «o homem é movido, governado pelas afecções e as ideias» parece distingui-las, mas de facto são indiscerníveis, cada figura, cada qualidade ou atributo é uma tensão de intensidades, e estas são ao mesmo tempo ideia-afecção. A crise individual, e a do mundo, vem da quebra da tensão, com o que se desemboca-se num mundo dos homens sensíveis e dos homens racionais, todos perdidos, e destruíndo-se a si mesmo e ao mundo. Só que não há paixões «mudas», infiguradas, pois elas são indissociáveis da «ideia», da figuração. Mas a figura é sempre afectada pela paixão . Daí a necessidade de lutar contra a «manipulação da afectividade» (sic). Trata-se de modular a intensidade de paixão que está contida em cada figura. Cada um terá de o fazer, ou todos serão modulados pelo controlo.

É evidente, pelo menos para mim, que Musil procura uma nova «psicagogia», bem mais necessária para a nossa época, do que para a sua, mas que é uma condição de modernidade. Hoje quando os serial killers merecem honras de primeira página, ou os canibais comem simpaticamente os maus como ocorre no Silêncio dos Inocentes, o esforço musiliano parece mais preciso. Mas não nos enganemos, não se trata de «psicologia», mas de mestria da alma, da psyché no sentido grego . Agora que o nihilismo se realizou a ponto de ter tornado familiar, e onde as intensidades, as «paixões» no sentido musiliano, são usadas pela técnica a tal ponto que, mais do nunca, parecem faltar humanos capazes de modular as forças que invadem todas as figuras, qualidades e atributos. Completado o arco do século, talvez hoje seja menos preciso destruir as qualidades do homem, elas estão a ser destruídas pela vorágine da técnica, do que introduzir o humano no mundo das qualidades, cada vez mais inumanas. O que exige uma nova Psychê, verdadeiramente política e não estética.

[1] - Fazer nota sobre Nietzsche o estado frio que precisa de paixão. Tal como o Esatdo precisa de calor para se impôr e viver, também a técncia para se realziar precisa da paixão.

[2] - É interessante verificar que na China sucedeu o contrário, e o mesmo sucedeu em Roma, como mostrou Max Weber.

[3] - Cria-se uma emaranhado de nomes a partir de siglas, para que Marcuse já tinha chamado a atenção para este fenómeno de transformação da linguagem em sigla.

[4] - O que falta é um pensamento sobre a técnica, que mantenha uma distãncia. Neste século Heidegger, e Jünger, mas também Simondon ou Brokenauer lançaram algumas bases para o edificar.

[5] - Kevin Kelly parece entusiasmado, mas apenas o pode estar porque contribui com o seu bruhaha para a incompletude.Dar cit. - (cf. AUT AUT)

[6] - Cit Traverses.

[7] - Note-se que não estamos a falar apenas da VR, que é uma mera técnica, mas também da própria dieia de virtualidade.

[8] - Nos últimos anos tem-se vindo a consolidar o interesse pela maneira como Aristóteles articula a potencialidade e actualidade. O estudo pioneiro é o de Martin Heidegger: Aristoteles Metaphysik IX. Há tradução francesa: Heidegger

[9] - Aristote. Métaphysique. De l'Essence et Réalité de la Force, Paris, Gallimard, 1991) Cf. Tb. O ensaio de 1953 sobre «a questão da técnica».

[10] - É aqui que se enraíza a metafísica do nihilismo.

[11] - Interrogo.me se não será esta velha concepção que leva Kerckhove a afirmar que «Le potentiel est fait de conditions non réalisées. C'est du virtuel au second degré. Le potentiel, comme son éthymologie le suggère,est une puissance, un pouvoir d'action, mais dont les conditions d'opération ne sont pas encore organisées en vue de cette action».

[12] - Sobre as implicações políticas e tecnológicas do esquema da potencialidade, cf. Christoph Flüer - «Quod racio principatis et subjecti sumitur ex racione actus et potentie» in REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS, 1 VOL, 1994, PP.127-142.

[13] - Estou a pensar no Estado total dos fascismos europeus, etc.

[14] - Seria possível ler a técnica como crescente substituição do natural e do histórico por tecnologia. A pintura pela fotografia, a oralidade pela escrita, a atmosfera pelo telefone, etc.

[15] - Para Jünger esse domínio exigia a «figura do trabalhador», como controlo total da técncia. Mas trata-se de uma ilusão rapidamente abandonada. CIT:

[16] - Não por acaso no mito do progresso pressupunha-se a sua realização automática sem qualquer esforço acessório e exterior, um pouco já como Adam Smith falava da «mão invisível» do mercado, dispensando toda a intervenção.

[17] - O historicismo do século passado intruduz o 3 na lógica, com a lógica dialéctica de Hegal. Mas todo o esquema era o da potencialidade.

[18] - O esquema era marcado por concepções figurativas, como e o caso da «filosofia da natureza» de Aristóteles. Assim, uma pedra continha «realmente» uma estátua de Fídias, enquanto esta exigia a pedra. Mas ianda não era «energia» ou »informação». A partir deste ponto todo o fiigrativo existe virtualmente na arquivilidade da cultura.

[19] - Não por acaso a modernidade, enquanto predomínio da realização, era dominada pela ideia de projecto e de programa. Cf. o meu livro Analítica da Actualidade, Lisboa, Vega, 1994.

[20] - Por exemplo, na política surgiam os dois irmãos inimigos, a Realpolitik e a utopia, por dissolução da oposição entre material e ideal. Mas os dois comunicavam no espaço do imaginário virtual.

[21] - Cf. Vitesse de Libération de Paul Virilio.

[22] - O que explica a proliferação das éticas consensuais e dialogistas e as comissões de ética que vão pululando um pouco por todo o lado.

[23] - Derrick de Kerckhove reconhece a existência de «dois» virtuais: «jusqu'à la révolution industrielle, consécration de la dynamique de la machine à imprimer, c'est à dire l'univers newtonien de la pesanteur, nous avons eu affaire à du virtuel "lourd", fortement conditionné par des finalités économiques et techniques. La métaphore technique fondamentale a été celle de l'énergie, potentiel brut plutôt que virtuel. Mais depuis que nous sommes entrés dans l'ère dite de l'information, du code électronique et des types de programmation qui ne passent même plus par le langage humain, le virtuel est devenu de plus en plus léger, son immatérialité invitant l'immatérialité des techniques elles-mêmes». Mas o virtual é um fenómeno bem mais lato.

[24] - Cf. RÖTZER, Florian - «Virtual Worlds: Fascinations and Reactions» in PENNY, Simon (org) - Critical issues in Electronic Media, New York, Sunny, 1995, p.120.

[25] - Como já o postulou Kant na 3.ª Crítica. Cf. António Marques.

[26] - Estou a aludir às teses de Joachim Ritter e de Odo Marquard sobre a arte como forma de compensação.

[27] - Repare-se que não temos nenhuma filosofia do desejo, nem nenhuma psicanálise. Usamo-lo de modo selvagem como o fizeram já os clássicos da modernidade. Cf. As análises de Derrida sobre Condillac.

[28] - Só as estratégias quasi.racionais como funcionam a partir da fuigra ou do objecto dos esejo. Discutir as teses de Foucualt. Ele fala pudicamente de souci de soi, mas o que é o soi? Nada.

[29] - Esta ilusão é necessária, indicando o que está em causa, o fim do tempo, em qualquer uma das suas formas. Chegaria ao fim o tempo da finitudo, mas também o tempo cronológico, Cf. Vitesse de Libération de Paul Virilio.

[30] - O que é novo é a capacidade de jogar com a razão e a paixão ao mesmo tempo. Assim, enqaunto que anteriormente o espaço diurno da razão estava nitidamente separado do espaço nocturno do prazer, hoje com o novo espaço eléctrico essa distinção começa a esbater-se.

[31] - Cf. Roland Barthes na Câmara Clara. Citar Gunther Anders.

[32] - Cf. Ed Keller - «Cinematic Thresholds: Instrumentality, Time & Memory in the Virtual», mantis@basilisk.com, 1995.

[33] - Cf. o excelente tratamento de Eric Mottram - William Burroughs. The Algebra of Need, Londres, Marion Boyars, 1977.

[34] - Os cyberpunks sonham já com os cyborgs.

[35] - Cf. Fernando Gil - Traité de l'Évidence.

[36] - Marshall McLuhan - Entrevista à Playboy, 1969. Conta-se que Jerry García, do grupo rock Grateful Dead, depois de ter assistido a uma demonstração da realidade virtual, teria comentando: «Conseguiram proibir o LSD. Mas não vejo como irão conseguir proibir isto».

[37] - Daí o carácter ilusório de teses como as de Lyotard, na Condition Post-Moderne, sobre a invenção das regras como forma de responder ao império do tecnológico. Estas também podem ser virtualizadas, dependendo apenas da mudança de nível. E todo o salto de nível pode ser linearizado num nível superior.

[38] - Cf. Jean Baudrillard - « The Virtual Illusion: Or the Automatic Writing of the World» in THEORY, CULTURE AND SOCIETY, Vol XII, 4, 1995, pp. 97.108.

[39] - BOCKRIS, Victor - A Report from the Bunker with William Burroughs, Londres, Vermillion, 1982.

[40] - Tese já anunciada por Rousseau no seu ensaio sobre as artes e as ciências.

[41] - Cf. Imagologies. Media Philosophy, Londres, Routledge, 1993.

[42] - Cf. CANDEIRA, Javier - «Bienvenidos à la Galaxia Virual in BALSA DE MEDUSA, 30/31, 1994, pp.97-116

[43] - Estou a referir-me a uma conhecida passagem das «teses sobre a filosofia da história» de Walter Benjamin.

[44] - Sobre o «real» cf. Clement Rosset. Trata-se de despotenciar o controlo, enquanto essência da técnica, sem a vontade milenar de rcusar o real.

[45] - KERCKHOVE, Derrick de - «Le virtual, imaginaire théchnologique» in TRAVERSES, N° 44.

[46] - Mas é uma política que mal estamos preparados para compreender, mas que não se confunde com a Realpolitik. O exemplo da administração Clinton revela a vontade controlar o controlo, sendo um bom exemplo da maneira como os políticos clássicos tentam colonizar este espaço.

[47] - Um breve exemplo: a falha do controlo dos paióis de pólvora no século passado, podia provocar uma quantidade de mortes e destruições apreciáveis, mas a falha de controlo ao nível da bomba nuclear, pode pôr em causa toda a humanidade. E o que dizer da experimentação com os vírus?

[48] Cf. Hans-Magnus Enzensberger - Die Bürgerlich Krieg.

[49] - Musil (1978: 537)

[50] - Como diz Musil sobre si próprio: «tão conhecido quanto desconhecido, o que não significa meio conhecido, antes produz uma mistura bizarra» (cit. Blanchot: 22).

[51] - Diz Musil sobra as «representações» ou «figuras»: são «famílias de pensamentos condicionados por uma afecção dominante, encadeamento de pensamentos típicos: em suma, o comportamento intelectual no seu conjunto, mas no interior de certos limites impostos pelas contingências. Visando menos esse comportamento que o seu conteúdo» (ib. 537).

[52] - É interessante verificar que o que nesta obra fascinante está em acto se encontra também em autores como Foucault, com a sua «estética da existência», ou em Patocka, o filósofo checo, até mesmo num Pierre Hadot.

[53] - Para mim a psyché é uma forma espectral da imagem do corpo. Usar o livro de Barthes sobre a fotografia.

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